Friday, February 10, 2006

A SEGUNDA (É DE) VEZ

Os corpos misturavam-se num roçar húmido e brusco. Escorriam neles um espesso liquído misturado de suor e sangue. Os gritos das crianças sobrepunham-se aos soltos lamentos das mães e dos velhos desamparados. O ecoar estrondoso dos tiros assombrava ainda mais a cidade violentada, opaca e prenhe de dor. -É A GUERRA E NÃO HÁ NADA A FAZER, GUERRA É GUERRA E A VITÓRIA É CERTA!, berrava uma estridente voz no transístor sintonizado no FM do regime. No meio deste desespero, fugí. Sem rumo nem aprumo. Corria ao avesso. Corria com a criança que trago comigo estampada na alma a cantar em lágrimas. A cantar a inocente cantiga das nossas bricandeiras do quintal. KUMANDJA, KUMANDJA, SA KUMANDJA, KUMANDJA KUMANDJA, SA KUMANDJA, KA BU ILAN KANHUTU, SA KUMANDJA, KA BU FEQUIN FARINHA, SA KUMANDJA...
Sim, bem no âmago do caos de uma guerra confusa, ocorria-me cantar para afugentar os maus espíritos que querem levar a criança que trago estampada na alma e que este meu corpo de adulto esconde.
Acompanhava-me também uma forte preocupação. Onde estaria o meu amigo Saliu? Saber do seu paradeiro foi na altura o maior desejo (Se é que, no meio de uma guerra, se pode ter outro desejo que não seja o de ser salvo). Mas eu tinha a imperativa vontade de encontrar Saliu. Angustiava-me o espírito pensar que Saliu pudesse ter sido engolido por aquela tragédia despida de sentido. Pensei na sua diminuída capacidade física. Na ceguez física da sua ampla visão. Como fugirá um cego deste caos onde os ditos "normais" sucumbem diminuidos?!! Por instantes tive a sensação de o ter visto a correr pela Avenida Unidade Africana acima, já estava junto da Mãe de Água e do Mercado de Bandim. Ia à frente da multidão. Indicando aos incautos o caminho a fugir. "Esquerda, Direita, Cuidado o tiro vem da zona do Palácio. Não, esse vem dos lados de Polón di Brá". Um cego a comandar uma multidão a fugir de uma guerra insensata. "Cego é quem não quer ver", usava dizer Saliu. Sempre com aquele sorriso do fim do mundo com que contava as façanhas da sua participação na "guerra de verdade", a de Libertação Nacional. A "guerra de verdade" que o deixou na eterna escuridão. Cego e esquecido.
Lembro-me do nosso reencontro, foi no Mercado de Bandim.
"Coitadi na Pidi Simóla"*... Estremeci quando ouvi a trémula foz que me suou tão familiar. Aproximei-me dele, desviando de gente que vendia e comprava tudo e mais alguma coisa. Saltando de poça em poça de água, livrando-me dos imensos lixos espalhados pela feira, até chegar próximo do homem que soltava em voz estridente o pedido de auxilio: "Coitadi na pidi simóla" . Em silêncio, sem prenunciar palavra, atirei uma moeda para a lata do alumínio. Sem se mover, Saliu soltou uma gargalhada e disparou: Estás de volta à terra, amigo? Como sempre, fazes tudo ao contrário. Escolheste má altura. Isto aqui cheira-me a sangue, muito sangue. Pouco tempo depois, caímos naquele caos. A última vez que estivemos juntos Saliu pareceu-me muito deprimido. Falava muito da guerra que o subtraíu a visão. Da vida que teve de viver a partir do acontecido. Combinamos um encontro para o dia seguinte. O meu amigo Saliu prometeu que me levaria à sua tabanca, em Djalecunda, próximo de Mansoa. Garantiu-me que ainda existem elefantes e outras espécies em extinção em Djalecunda . O encontro ficou assim irremediavelmente adiado.
Ao chegar ao cais, onde todos tentavam embarcar no pequeno e sobrelotado navio pesqueiro, em fuga, rumo ao incerto, procurei mais uma vez por um sinal do meu amigo. Gritei o seu nome e o silêncio devolveu-me empurrões e palavrões dos que queriam à toda a força embarcar no navio fugitivo. Alguém fez-me sinal para embarcar. Nô bai, barcu na ranca, bumbas na cai na tudu lado, Nô bai rapaz. Disse-me um velho simpático, puxando-me pelo braço direito. Era hora de partida. A espera já não era mais razão. Resisti. único e sozinho. E lentamente fui-me entregando. Caminhava lentamente e já estava no chão do navio quando me virei de repente e vi o meu amigo Saliu em terra. Estava de branco e armadilhado até à alma. Atrás dele, aproximava-se um pelotão armado e em disparos. O meu amigo cego parecia ver tudo. Tirou uma das armas que trazia e apontou-a à nuca. Olhou para mim e gritou : "ninguém me apanha mais. Da primeira vez levaram-me a vista, desta vez, até à vista!". O barulho do disparo misturou-se com o som do navio a arrancar. Estava ainda em choque e a pensar na razão desta guerra quando li, escrito numa das portas do navio, "Djito tem qui tem"***. Será?
Waldir Araújo

*O Coitado está a pedir Esmola
**Vamos, o barco está a partir, as bombas caem por todo o lado, vamos rapaz.
***Tem de haver solução

1 comment:

Flávio Côrrea de Mello said...

boas as histórias que tu contas... plenas de sentidos e vastas emoçoes e, no entanto, apenas histórias... simples histórias.