Monday, May 22, 2006

AO FUNDO DO TÚNEL, AS ESTRELAS

Iluminam a cidade embrulhada num enorme manto de breu. Emprestam o seu brilho aos pálidos e sonolentos edifícios da cidade fantasma.
São a luz de uma cidade eternamente adormecida. Sucuro mip*. Iluminam placidamente os trilhos dos que aventuram sem destino pelas ruelas sofridas e desconfiguradas da capital. São muitas e brilhantes. Brilhantes no seu luminoso convívio.
São de ninguém e pertencem-nos. São pertenças de crianças que as baptizam de nomes tão inusitados. Nomes tão poéticos que rimam com o luar. No seu silêncio dourado, berram. Parecem gritar palavras de ordem. Palavras soltas e indecifráveis que caem em tons de luz, iluminando a cidade embrulhada num enorme manto de breu.
Imponentes, presenciam a tudo. Numa presença incandescente, são testemunhas do doloroso percurso desta cidade mártir. Conversam entre si e às vezes soltam gargalhadas despregadas. Ao entresticerem, apagam-se. Lentamente. Como o lento e doloroso destino da cidade que iluminam. Emitem sinais. Ditam prenúncios para os que conhecem os códigos dos astros. São as luzes do tecto dos errantes que fogem do dia. Do dia-a-dia. Dos que já perderam o norte e entraram tão depressa nesta noite escura. Testemunhas silenciosas da loucura dos que determinam o destino desta cidade, multiplicam-se à laia de conspiração. E juntas, insistem em iluminar a cidade das luzes ocultas. Provocam desvios nos olhares dos que não querem ver no semblante do próximo o destino comum. O seu reflexo nas águas de Pindjiguiti** evoca os mártires do massacre. Há quem diga que, ao adormecerem, escolhem como leito as serenas ondas deste mítico cais. Acordam ao anoitecer para iluminar a nudez da minha cidade de Bissau. Suavemente. Como que numa tentativa de devolver a esperança a quem já não acredita no poder das estrelas. A quem já deixara de crer que o Céu é o limite. Porque o limite é a própria sombra. Ameaçadora, provocante e atroz. A sombra de uma realidade sem brilho que as estrelas do céu da minha capital persistem em emprestar algum sentido. Um pequeno brilho que seja. Uma luz que a esperança há-de resgatar.
Waldir Araújo

*Sucuro mip - Profundamente escura (crioulo)
**Pindjiguiti - Nome pelo que ficou conhecido o massacre ocorrido a 03 de Agosto de 1959, no Porto de Bissau, como consequência da greve dos marinheiros e estivadores guineenses que reclamavam melhores condições salariais aos patrões portugueses.

1 comment:

Flávio Côrrea de Mello said...

waldir,
a revista ficou pronta, está ótima. Alguns comentários sobre tua literatura estão surgindo!
bom né?
abração